Por Brunella Tristão Simonelli
26 de maio: entrou em vigor a atualização da NR-1, que já havia sido adiada por um ano. 29 de maio: último dia para o envio da declaração do imposto de renda, que iniciou em 23 de março.
No primeiro caso, diante de uma fiscalização, não tem como prever em valores a penalidade por não estar de acordo com o que a NR-1 exige. No segundo caso, perder o prazo, significa pagar uma multa que pode chegar a 20% do imposto devido.
Os dois episódios trazem em comum algo que costumamos justificar com o “jeitinho brasileiro” de deixar tudo para a última hora. No entanto, a justificativa para estar sempre na berlinda, desafiando prazos e consequências pode ir além.
A procrastinação não é, necessariamente, preguiça. Em muitos casos, estamos diante de um mecanismo psicológico de evitação. As pessoas tendem a adiar aquilo que gera desconforto emocional, por mais relevante que seja a tarefa a ser cumprida.
Dessa forma, o ato de procrastinar costuma ter uma relação mais forte com as emoções, do que com uma eventual falta de gestão do tempo, por exemplo.
Quando analisamos com propriedade o comportamento de deixar tudo para a última hora, vemos um fenômeno cultural, sim, mas, antes de tudo, emocional e humano na priorização do alívio imediato com o adiamento do desconforto que a obrigação traz, em detrimento da consequência futura de uma possível punição.
Entre as principais causas da procrastinação, podemos citar ansiedade diante da tarefa; perfeccionismo; sobrecarga mental; fadiga emocional; falta de clareza sobre o que é prioridade; busca por recompensa imediata; além, claro, de questões emocionais que não são tão óbvias assim. Por trás da procrastinação pode haver baixa autoestima, medo de fracassar, medo de ser avaliado ou até medo do sucesso.
A procrastinação eventual pode ser considerada uma atitude humana comum e compreensível. O problema surge quando ela se torna um modo de funcionamento, que na prática, pode ser bastante disfuncional.
Nesse sentido, as consequências surgem em dimensões de maior impacto para o sujeito e para a sua saúde mental, a saber: aumento do estresse e da ansiedade; sensação constante de culpa; queda de produtividade e qualidade; retrabalho, reações impulsivas e precipitadas; desgaste nos relacionamentos profissionais; perda de credibilidade e da confiança; adoecimento; sensação de incapacidade e autossabotagem.
Socialmente, o “jeitinho brasileiro” é uma explicação romantizada para aqueles que, teoricamente, funcionam melhor sob pressão ou que sabem que ao final, tudo dará certo.
O fato é que existe uma diferença marcante entre descansar conscientemente, para recuperar energia ou trabalhar outras urgências e procrastinar, se esquivando daquilo que precisa ser enfrentado. O descanso ajuda o organismo a se restaurar; a procrastinação só adia uma cobrança que pode ter um alto custo emocional e até mesmo financeiro.
Do ponto de vista do desenvolvimento humano, amadurecer também significa aumentar a capacidade de fazer o que precisa ser feito, independente do desconforto que isso traga. E você: é do time que cumpre prazos com conforto e antecedência ou do que prefere deixar tudo para a última hora?


