Por Brunella Tristão Simonelli
O ano era 2002. Estava formada em Psicologia há um ano e trabalhava em uma consultoria em RH em Vitória. Candidatei-me a uma vaga de trainee nessa mesma área em uma grande mineradora. Era a chance de ter um salário quatro vezes maior, uma política de benefícios atrativa, sobretudo, uma carreira que poderia me levar a experiências internacionais.
Eram outros nove concorrentes e um processo longo. Prova de inglês, dinâmicas de grupo, entrevistas e testes na consultoria terceirizada e, finalmente, a entrevista com a gestora na própria mineradora. Nessa fase eu era a única candidata.
No dia da entrevista, chuva, muita chuva. Existia um ônibus intermunicipal, um guarda-chuva e muita vontade de que desse certo. De repente, a gestora que me entrevistava disse: “Não sei se você começa pelo recrutamento e seleção ou pelo treinamento e desenvolvimento.” Foi aí que eu pensei: “Consegui; a vaga é minha.”
Semanas se passaram e a notícia que eu tanto esperava não vinha até que uma das psicólogas da consultoria me ligou e disse que a vaga havia sido cancelada. O processo era para substituir uma pessoa que simplesmente desistiu de sair da empresa.
Não sei colocar em palavras a minha frustração naquele momento. Era por volta de setembro, outubro, mais ou menos, e eu só pensava: “Se esse processo deu errado, qual outro daria certo?”
O fato é de que dessa tamanha frustração e falta de respostas, não as objetivas, mas as toleráveis, eu desisti. Desisti de participar de processos seletivos em Vitória e planejei e montei a minha própria consultoria em Linhares. Em março de 2003 a Talento já estava de portas abertas.
Essa história ainda norteia as minhas ações. Foi assim que eu aprendi o peso e a responsabilidade de abrir uma vaga e envolver pessoas nisso.
Claro; imprevistos acontecem. A empresa pode ter um contrato cancelado e já não fazer mais sentido aumentar o quadro de funcionários. Essa é apenas uma possibilidade dentre tantas outras.
Entretanto, uma empresa não pode deixar de planejar a remuneração proposta desde o início e mudar a lógica do jogo com o processo em andamento. Não deve adiar sem motivos as entrevistas com os candidatos finalistas, assim como, não deve cancelá-las após agendadas. Um candidato não deve perder um dia de trabalho para tentar ingressar em uma vaga que não existe mais ou que não se tem a certeza que existirá de fato.
Estamos cheios de queixas em relação ao comportamento das pessoas que se candidatam a uma vaga. Eu sei, eu também estou. Todavia, a postura que um contratante assume diante desse processo diz mais sobre a política de gestão de pessoas dele, do que qualquer outro processo específico da área. Uma frustração dessa compõe a reputação de uma empresa e dificulta que outras pessoas queiram trabalhar ali.
Eu tenho dito em meus treinamentos que a base, a fundação da gestão de pessoas não é complexa; é genuína. Depende de respeito à dignidade humana e de disponibilidade para se comunicar. Empresas que têm isso não estão sós. Enfrentam as adversidades de cenários incertos, sim, contudo, não ficam sem parcerias, sejam as internas, ou as externas.
Tudo tem dois lados e quem trabalha com pessoas não pode, antecipadamente, tomar partido por um. Tem candidatos bons e outros não tão bons assim. Com os contratantes é a mesma coisa. Tenhamos ética e mantenhamos o compromisso com o ser humano. Assim dará certo.
Aos candidatos, esclareço dois pontos: “O retorno sobre uma seleção vem após vocês, efetivamente, ingressarem no processo (entrevistas, testes, provas). Provavelmente, não virá apenas com o envio de um cadastro. Além disso, jamais peçam demissão de um trabalho simplesmente por serem convidados a participar de uma seleção.”


