A conta que não fecha parte I: perspectiva do empregador

Como explicar empresas com dificuldades em preencher as suas vagas e muitas pessoas procurando emprego? Se profissionais e contratantes têm objetivos que se complementam, por que não se encontram?

As empresas alegam falta de profissionais qualificados. Os candidatos, por sua vez, identificam-se com as exigências das vagas no que se refere à formação e experiência. Teríamos, então, um desalinhamento no conceito do que é um profissional qualificado? Teríamos ainda, expectativas dos candidatos não atendidas no que se refere a salário, benefícios e conceito de um bom lugar para trabalhar?

Bem, no que se refere à qualificação a maior lacuna está em um investimento muito direcionado às competências técnicas (hard skills), que faz com que o conjunto de formação acadêmica, complementar e de experiência profissional seja quase sinônimo de profissional qualificado. Ora, o mercado não deixou de dar importância às competências técnicas, pelo contrário, elas são pré-requisitos para que um profissional seja convidado a participar de uma seleção, principalmente, quando o nível do cargo exige alguma vivência anterior na função. O que ocorre é que se dois candidatos “empatam” em formação e experiência, será selecionado aquele que durante o processo seletivo demonstrar maior desenvolvimento de suas competências comportamentais (soft skills).

As competências comportamentais serão decisivas, também, na avaliação dos jovens aprendizes e profissionais que buscam o primeiro emprego. As soft skills se referem aos resultados que podem ser alcançados nas organizações a partir das atitudes dos colaboradores. Alguns exemplos são: foco em resultado, trabalho em equipe, proatividade, visão sistêmica, resiliência, organização, planejamento, principalmente, busca constante por informação e conhecimento.

Isso quer dizer que, na grande maioria das vezes, quando a empresa diz não ter encontrado profissionais qualificados ela quer dizer que no repertório comportamental os candidatos não demonstraram resultados alcançados por meio da colaboração em equipe, ao prever e evitar problemas, na autonomia em buscar conhecimentos e propor melhorias e até mesmo na pontualidade e comportamento durante o agendamento das etapas e na própria entrevista.

Ainda nesse sentido, temos um outro fator primordial para que um candidato seja convidado a participar de um processo seletivo: a sua estabilidade profissional. Um profissional estável aos olhos do empregador, é aquele que permanece em seus trabalhos, por no mínimo 14 meses. Então, aqueles que têm várias permanências curtas, muitas vezes, inferiores a 8 ou 10 meses, terão maior dificuldade de recolocação. Pode ser que esse parâmetro mude, uma vez que a percepção do que é uma permanência estável varia de geração para geração. Por enquanto, essa divergência ainda existe.

Percebam: investir em formação continuada é importante, mas não desenvolver competências comportamentais e socioemocionais é desastroso para qualquer carreira. E se a conta não fecha é importante avaliarmos essa lacuna também na expectativa dos profissionais, sejam os empregados ou os disponíveis para a contratação. Por esse motivo, continuaremos esse bate papo, mas na perspectiva dos profissionais. Até lá!

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