As mulheres que não queremos como CEOs

Por Brunella Tristão Simonelli

“Deus me livre de mulher CEO. Salvas raras exceções (eu particularmente só conheço duas), essa mulher vai passar por um processo de masculinização que, invariavelmente, vai colocar meu lar em quarto plano, eu, em terceiro plano e meus filhos, em segundo plano.”

Foi o que disse Tallis Gomes, ex-CEO da G4 Educação. Ele que também era presidente do conselho de administração da empresa foi substituído pela Diretora Financeira, Maria Isabel Antonini*. Ao meu ver, estrategicamente substituído, já que a empresa tem a desafiadora missão de recuperar a sua reputação.

Esse discurso misógino e reducionista sobre o papel feminino demonstra a mulher que não queremos ver como Chief Executive Officer (CEO): aquela que é desvalorizada, subjulgada, que recebe menos que os homens, que tem que, diariamente, reafirmar as suas competências para que confiem em suas decisões e em sua liderança.

A fala do empresário retrata uma visão ultrapassada e limitante sobre o papel das mulheres, tanto no mercado de trabalho, quanto na sociedade. O que acompanhamos vai muito além da desvalorização das mulheres e traduz um desconhecimento profundo das contribuições que elas já oferecem e continuarão a oferecer às organizações, à comunidade e às suas famílias.

O receio da masculinização da mulher demonstra o quanto, erroneamente, o poder e a liderança ainda estão atribuídos aos homens. Ora, a liderança não tem gênero. Mulheres podem ser firmes e empáticas, estratégicas e sensíveis ao mesmo tempo. Seu dinamismo multifacetado e suas habilidades em resolver conflitos traz eficiência e leveza à gestão.

As organizações precisam refletir acerca das mudanças que ocorreram na sociedade. A mulher não precisa escolher entre a carreira e a vida pessoal. Ao invés disso, devem evoluir para que o equilíbrio seja oferecido a todos: homens e mulheres. Afinal, Deus me livre de organizações arcaicas.

Discursos como o desse CEO além de desconstruídos, precisam ser substituídos por ações que promovam a diversidade, a inclusão e a equidade, até porque, Deus me livre de um salário 30% menor pelo simples fato de ser mulher.

Aliás, a disparidade salarial é uma das maiores injustiças profissionais. Ela não vem da falta de qualificação, de capacidade ou de um desempenho insuficiente e sim, de uma questão cultural e estrutural, que além de uma injustiça individual, representa uma perda econômica significativa para as empresas e para a sociedade como um todo.

Se tem algo que pode minimizar a atuação feminina em cargos de liderança é justamente essa luta diária por validação de sua performance, o que é muito exaustivo e desgastante. Ter que reafirmar-se diariamente cansa. Qualquer líder (homem ou mulher) que precise provar seu valor constantemente terá a sua capacidade de liderança enfraquecida.

O resultado a gente já conhece: empresas que discriminam as suas CEO’s e demais gestoras perdem de vista o real valor das mulheres e, claro, todo o seu diferencial e raridade.

Deus que livre as organizações de perderem o que as mulheres têm a agregar, não é mesmo? E, novamente, Deus livre as mulheres de culturas organizacionais misóginas e ultrapassadas.

brunella@talentorh.net

*https://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2024/09/21/tallis-gomes-renuncia-a-cargo-de-ceo-apos-fala-machista-mulher-assume.htm

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