Por Brunella Tristão Simonelli
“São muitas vagas de trabalho, mas falta mão de obra qualificada”. Há quanto tempo você ouve isso? Eu já perdi a conta de quantas palestras, entrevistas em programas de TV e reuniões eu participei sobre o tema.
Afinal, o que é a qualificação tão demandada pelo mercado de trabalho e ao mesmo tempo, avaliada como insuficiente? Que fenômeno é esse que tem tornado os processos seletivos intermináveis?
Vale lembrar que o conceito de competência é amplo: considera conhecimentos e habilidades como as competências técnicas ou hard skills e as atitudes, como as competências comportamentais ou soft skills.
Nessa lógica, quando uma pessoa faz um curso complementar ou avança em sua formação acadêmica ela adquire conhecimentos. A partir do momento que exercita esses conhecimentos, por meio de treino, estágio ou demais atividades práticas, ela desenvolve habilidades. Observe, portanto, que fazer um curso de Excel é diferente de ter habilidades com o programa, por exemplo.
Vamos além; uma pessoa só coloca seus conhecimentos e habilidades em prática se quiser e assim eu trago o conceito de atitude ou, se preferir, competência comportamental. Eu posso saber como otimizar algumas atividades de uma empresa, gerando relatórios com maior clareza na apresentação de informações e fazendo análises que não seriam possíveis sem a integração de dados, por meio do próprio Excel, mas essa eficiência depende da minha atitude em colocar os meus conhecimentos e as minhas habilidades em prática.
Perceba que uma pessoa será considerada competente, ou seja, qualificada, se reunir conhecimentos, habilidades e atitudes favoráveis em seu perfil.
Toda competência comportamental ou soft skills é uma atitude. Em outras palavras, atitude é tudo que envolve o repertório comportamental: proatividade, foco no cliente, foco em resultados, comunicação fluida, trabalho em equipe, dinamismo, etc.
Os profissionais precisam então, incluir o seu desenvolvimento intrapessoal e interpessoal no seu plano de qualificação. Não basta concluir uma graduação; é necessário desenvolver as competências comportamentais que serão requeridas de um profissional de nível superior, como o planejamento, a autonomia na tomada de decisão, a visão sistêmica, a tolerância à pressão, dentre outras soft skills.
Em muitos momentos, quando o mercado diz que “falta mão de obra” qualificada os conhecimentos e as habilidades exigidos para o preenchimento de uma vaga foram encontrados. Os candidatos, entretanto, podem ter adotado comportamentos desfavoráveis durante a seleção ou encontrado alguma dificuldade em demonstrar as suas atitudes nas diversas fases utilizadas para a escolha do profissional. É o típico caso daqueles que têm um excelente currículo, com experiências anteriores relevantes, inclusive, e que não conseguiram ser avaliados favoravelmente pelo selecionador.
Logo, cabe a esses candidatos, seja por conta própria ou a partir da ajuda de um profissional de carreira, uma análise das questões comportamentais e/ou emocionais, que podem frear a sua empregabilidade para desenvolvê-las e destravar o seu avanço no mercado de trabalho. Existe uma sequência lógica aqui: avaliar, reconhecer e desenvolver.
Por outro lado, das instituições de ensino e dos centros de formação profissional, esperamos um maior foco no desenvolvimento das atitudes que são esperadas pelo mercado. Que seja oferecida, para além de currículos, certificados e diplomas, uma formação que desenvolva as pessoas de maneira mais ampla.
Almejamos, inclusive, que essa amplitude do conceito de competência seja trabalhada. Afinal, não existe um bom profissional se antes não existir uma pessoa segura, autônoma e madura social e emocionalmente.
Entende agora por que falamos de falta de mão de obra qualificada, mesmo encontrando profissionais com a formação e a experiência almejadas? O conceito de qualificação é mais amplo do que se imagina. Isso faz com que alguns profissionais tenham uma menor empregabilidade, ao passo que outros sejam vistos como uma raridade; são disputados no mercado e mais bem remunerados.
E você: faz parte da primeira parcela ou da segunda?


