Por Brunella Tristão Simonelli
Reproduzir discursos sem uma análise crítica dos elementos disparados pode ser muito perigoso. Confortável, em alguma proporção, mas mesmo assim, muitíssimo perigoso.
Dia desses estava no comércio e havia apenas uma operadora de caixa trabalhando. Demorou um pouco para eu ser liberada, devido a alguns impasses com o PIX que a cliente anterior teve. A operadora se desculpou pela demora e me disse: “é que ninguém mais quer trabalhar”.
Semana passada publiquei uma vaga, que excepcionalmente também era para o comércio. Ninguém se inscreveu. Eu fiz o convite a cinco profissionais de cadastros mais antigos. Apenas dois me responderam. E antes que você pense que a operadora de caixa tinha razão, as justificativas foram: “agradeço o convite, mas graças a Deus agora eu trabalho para mim mesmo” e “fico feliz por ter recebido o seu contato, entretanto, agora eu já estou em um nível de analista”. Quanto aos três que não responderam, nada posso afirmar, todavia, suponho (e só suponho mesmo), que também estejam em posições melhores.
Mês passado fechei sete vagas. Apenas dois dos profissionais selecionados não estavam trabalhando. Os outros cinco fizeram opções por posições melhores ou por condições de trabalho, remuneração e benefícios mais atrativos.
“A dificuldade é que essa Geração Z não quer trabalhar”. Tenho certeza que você também já ouviu ou até disse isso. Tá, então, o que essas organizações farão se essa geração representou 27% da força de trabalho global em 2025, com estimativas de chegar a 30%, em média, já em 2026?
Eu falo da posição de quem também enfrenta muitos desafios conduzindo processos seletivos, contudo, mesmo assim, não é nada estratégico para a minha atuação adotar justificativas em frases prontas ou discursos pouco críticos da realidade em que nos encontramos.
Para além da seleção, passar 90% do meu tempo desenvolvendo equipes, líderes e realizando diagnósticos organizacionais, talvez explique o porquê de algumas empresas viverem cenários menos críticos que outras.
Portanto, o cuidado que se tem que tomar é para que as falas e posicionamentos não funcionem como âncoras, que impeçam o movimento para fazer diferente ou além do óbvio.
Se a dificuldade de contratação fosse em virtude dos “benefícios da Samarco” seria fácil contratar em outras regiões do país, quando na verdade estamos falando de uma escassez quase que generalizada.
Se os benefícios do governo fossem responsáveis por essa realidade, não teríamos, só em 2024, 1,3 milhão de famílias deixando os programas por aumento de renda nem, entre 2023 e 2024, 91% dos novos empregos formais sendo ocupados por beneficiários, que ao alcançarem a dignidade do trabalho, abrem mão da política assistencial.
Veja, eu não estou defendendo a política de benefícios. Essa seria outra discussão. O objetivo é apenas apresentar dados que mostrem que os discursos e argumentos atuais podem ser rasos e insuficientes para explicar mais criticamente os desafios do mercado de trabalho.
Sem essa análise crítica não fazemos nem o básico, quem dirá além do óbvio. O intuito é sair da ancoragem e gerar movimento, de modo a experimentar outras realidades. Mesmos caminhos e métodos levam aos mesmos resultados. Isso também é obvio, mas queremos ir além, ou não?


