Por Brunella Tristão Simonelli
Você que é leitor da coluna já me viu falar sobre desenvolvimento humano, sobretudo, no campo da liderança. Já me acompanhou, também, falando sobre o desenvolvimento organizacional, planejado a partir de um diagnóstico minucioso.
São dois processos cada vez mais frequentes, mas ainda frustrados para muitas pessoas e organizações ao compararem expectativas e resultados. Afinal, por que isso acontece?
Ora, vemos pessoas vinculando o seu desenvolvimento apenas ao investimento em sua formação técnica, seja a educacional, seja a da ascensão profissional. Igualmente, percebemos organizações focando todas as suas estratégias de desenvolvimento no treinamento de suas equipes.
Todas essas ações são importantes, imprescindíveis até. O desenvolvimento, todavia, envolve processos muito mais amplos, inclusive, anteriores aos citados.
Por exemplo, você conhece exatamente quais são as suas características pessoais, os seus traços de personalidade e a sua dinâmica emocional? Ter esse autoconhecimento é fundamental, já que precisamos desenvolver as características que podem ser disfuncionais e fazer bom uso daquelas que representam nossas potencialidades.
Muitas pessoas, contudo, se fixam a comportamentos ou reações emocionais que trazem consequências negativas já vivenciadas anteriormente, sem que se deem conta dessa repetição: os mesmos conflitos no trabalho, o mesmo padrão de relacionamento afetivo, etc. São sintomas que as aprisionam e fazem com que andem em círculos. Em algumas situações o sujeito reconhece o que precisa ser mudado, tenta e não consegue sozinho. Em outras, sequer percebe o que precisa ser desenvolvido.
Ao contrário do que se imagina, não se trata, necessariamente, de autossabotagem, negligência ou rigidez. Por vezes, tal contexto se refere a um autoconhecimento insuficiente para a identificação dos pontos que precisam ser trabalhados.
Com as organizações acontece o mesmo. As ações são planejadas para a mudança, mas aspectos da cultura organizacional podem ser tão fortes a ponto de não deixarem os colaboradores e a empresa saírem do lugar.
Encontramos nas pessoas dinâmicas emocionais complexas: impulsividade, reações às adversidades intensas e abruptas, conflito interno, comportamentos estereotipados, falta de identidade. Nas organizações, idem: perversidade nas relações, egocentrismo exacerbados nas autoridades, fragilidade nos elos intersetoriais, privação do conhecimento.
Então, eu reforço: programas de treinamento são imprescindíveis. Há, entretanto, ações anteriores extremamente necessárias para que o desenvolvimento pessoal ou o organizacional sejam tratados com o cuidado e com a especificidade que merecem.
Diga-me: que programa de treinamento daria conta de toda essa complexidade? Como desenvolver pessoas e organizações sem colocar tais realidades diante do espelho?
Por fim, eu vou me apropriar dos ensinamentos da psicanálise: a verdade só pode ser dita quando esperada. Então, preparemos as pessoas e as organizações para o que elas vão DES-COBRIR. Des-cobrir é o ponto inicial do desenvolvimento. Os programas de treinamento são posteriores.
Precisamos, então, de avaliação de potencial para as pessoas e de diagnóstico para as organizações.
Esse assunto é muito sério. Espero que eu tenha conseguido apresentá-lo de uma forma que faça sentido para você.


