Transferências velozes e relações vazias: afinal, o que a comunicação humana vem se tornando?

Por Brunella Tristão Simonelli

Vossa mercê, virou vossemecê, que virou vosmecê/vosmicê, que virou você, que por sua vez se transformou em “cê”, mas se for digitando é “vc” apenas ou quem sabe um emoji com um dedo apontando em sua direção.

Esse exemplo clássico de redução fonética faz parte da variação histórica em que a língua muda ao longo do tempo para se tornar mais ágil e informal, além de ter o objetivo de facilitar a interlocução em nosso cotidiano.

Até aí tudo bem. Estamos falando de um processo histórico e de evolução em que muitos termos são encurtados. Mas, o que acontece quando a disponibilidade e a abertura relacional para a comunicação (ação comum) diminuem?

Falamos em conexões, mas cada vez mais precisamos do sinal do wi-fi para isso. Incentivamos o desenvolvimento da liderança, entretanto, ainda vemos pessoas desorientadas, tendo que aprender tudo sozinhas. Queremos prestar o melhor serviço, contudo, quando fazemos três perguntas decisivas para a compreensão de uma demanda só recebemos a resposta de uma delas.

O que adianta as ferramentas estarem mais velozes, se estamos mais distantes? Os riscos são gigantescos. A comunicação tende a ficar mais rápida, mas também mais rasa. Menos contexto, menos nuance, menos escuta. Isso fragiliza vínculos, especialmente em ambientes organizacionais onde a confiança é construída nas entrelinhas.

Além disso, há aumento de ruído e de interpretações equivocadas
O que não é dito, seja o tom, a intenção ou a emoção, passa a ser finalizado por quem recebe, todavia, nem sempre esse preenchimento se dá de forma adequada.

Se a comunicação é uma fonte de afeto, reconhecimento e validação, quando a reduzimos demais corremos todos os riscos do empobrecimento emocional, abrindo mão da empatia e do cuidado, fundamentais para relações saudáveis.

No contexto da liderança vemos um esvaziamento da influência. Líderes que se comunicam pouco, mal ou de forma excessivamente sintética tendem a gerar desalinhamento, insegurança e baixa mobilização na equipe. Não podemos esquecer que a comunicação não é apenas transferência de informação, é construção de sentido.

Em suma, o risco não está no uso de menos palavras ou termos mais curtos; ao contrário, está na menor presença. A linguagem pode evoluir, mas a necessidade humana de ser compreendido, reconhecido e conectado continua a mesma.

Afinal, estamos simplificando a linguagem ou esvaziando as relações?

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