Por Brunella Tristão Simonelli
Você deve conhecer alguma situação em que alguém foi julgado por um episódio isolado de sua vida pessoal ou profissional, sem considerar toda a sua história.
Assistimos a isso no dia 29 de junho, durante a partida entre Brasil e Japão, quando em grande parte do jogo dispararam as críticas ao jogador Casemiro. Os torcedores o queriam fora. Velho e lento eram adjetivos que justificavam o desejo de não o ter mais como titular da seleção brasileira.
O erro? Ele foi acusado de não conseguir acompanhar a arrancada do atacante Sano, que resultou no gol do adversário. Amarelado, ele optou por não fazer a falta no meio-campo para não ser expulso. Mas, na prática a jogada iniciou com um erro de passe do lateral Danilo, e o próprio técnico Carlo Ancelotti isentou o volante de culpa.
Perceba como as análises são superficiais. O foco vai para o gol feito pelo Japão e a totalidade deixa de ser considerada. A responsabilidade recai apenas sobre um integrante e não sobre o elo inicial.
Até que durante o segundo tempo ele marca o gol do empate. Os memes de pedido de desculpas tomaram conta das redes sociais. Mas, veja: não era outro jogador, era o mesmo, dono de uma história vitoriosa que o levou a ser titular da seleção brasileira.
Nas organizações isso acontece todos os dias. Erros, perdas, ineficiências são avaliadas de forma isolada, sem compreensão do processo, apenas com o julgamento do jogador final, que pode até ter construído um histórico honroso, colaborativo e de resultados marcantes. Caiu, contudo, na terrível armadilha humana: o erro. Quantos? Às vezes, apenas um.
Por vezes esse errante alerta, conversa, expõe problemas estruturais, mas não tem a atenção devida, que só vem após o “leite derramado”. Ele avisou, ninguém ouviu, e quem paga por isso é ele.
Essa é a forma mais devastadora de se perder um talento. Desconsiderar uma história e dar um peso desproporcional a um episódio isolado.
E aqui nós temos mais uma lição para a liderança. Escolhas e análises sem um adequado conhecimento sobre a operação trazem perspectivas enviesadas, sem a visão sistêmica do impacto de suas decisões. Liderar não é se afastar das decisões estratégicas para operar. É preciso, contudo, estar próximo e observar com parcimônia.
A planilha pode ser a mais completa; o sistema, o mais eficiente, mas a capacidade de análise é essencialmente humana. Decisões imparciais, sobretudo, que resultam no sentimento de injustiça é um dos maiores equívocos de um líder, que vai moldando a cultura organizacional de uma maneira bastante desgastante.
Os líderes de maior influência no time conhecem profundamente cada um de sua equipe e sabem que as pessoas não mudam a opinião sobre um colaborador, mudam sobre o resultado. A grande questão é se esse resultado é algo consistente ou meramente pontual.
O Casemiro não se transformou em um excelente jogado no segundo tempo; ele apenas confirmou uma trajetória que o levou a estar naquele lugar. Avaliações superficiais geralmente não injustas.
O Casemiro tem um excelente técnico. Que as organizações tenham excelentes líderes. Fica a lição.


