Por Brunella Tristão Simonelli
Você conhece o panorama educacional do Brasil? Esse conhecimento é imprescindível para as organizações compreenderem a preparação do brasileiro para o mercado de trabalho.
Conseguimos ampliar o acesso à escola, mas ainda não conseguimos consolidar esse acesso consistentemente para transformá-lo em competências que as pessoas consigam utilizar na vida adulta e profissional, de forma a aumentar a qualidade de seus empregos.
O primeiro indicativo aparece quando avaliamos o Programa Internacional de Avaliação de Alunos (PISA), que a cada três anos mede a proficiência de alunos de 15 anos de idade em leitura, matemática e ciências. Tal programa foi criado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).
Com base nos dados de 2022, o Brasil está deficitário nas três categorias avaliadas, se comparado à média dos demais países da OCDE: 93 pontos abaixo em matemática; 66 a menos em leitura; e 82 a menos em ciências.
A segunda evidência vem com o Indicador de Alfabetismo Funcional (INAF). Dados de 2024 demonstram que 29% dos brasileiros de 15 a 64 anos são classificados como analfabetos funcionais, sendo esse índice de 17% mesmo entre os que concluíram o ensino médio. Aliás, apenas 24% dos que terminaram o ensino superior, chegaram ao nível de proficiente.
Mais especificamente na faixa etária de 15 a 29 anos temos 16% de brasileiros que são analfabetos funcionais, 2% a mais do que tínhamos em 2018.
Os jovens que estão no nível elementar representam 39%. Essa realidade cria uma enorme faixa intermediária dos que não são analfabetos funcionais, todavia, não dominam plenamente competências de maior elaboração cognitiva.
A questão principal, portanto, não é apenas quanto o jovem estudou e sim o que ele consegue fazer com aquilo que aprendeu. Na prática isso quer dizer que o mercado de trabalho está recebendo profissionais com trajetórias educacionais muito distintas. Uma escolaridade de ensino médio completo representa uma vasta diversidade em interpretação de texto; matemática; análise de informações; resolução de problemas; interpretação de gráficos; pensamento crítico; autonomia para aprender; e comunicação escrita.
No trabalho essas variações de desempenho poderão ser interpretadas pelo gestor como falta de atenção, falta de interesse, falta de iniciativa ou falta de inteligência. Entretanto, para além de qualquer avaliação individual sempre haverá uma questão educacional muito mais ampla como cenário.
Como efeito prático, o foco volta para a gestão de pessoas, já que para serem funcionais e produtivas, as empresas precisarão cada vez mais avaliar o que a pessoa consegue fazer, a capacidade de entrega, o raciocínio lógico, e não apenas o que consta na certificação obtida. Desenvolver competências que a escola não consolidou já é e continuará sendo a única saída.
Em síntese, as organizações precisarão assumir uma responsabilidade cada vez mais estratégica. Treinamento, liderança, educação corporativa e gestão por competências assumem o centro da estratégia empresarial. Não é benefício; é uma necessidade e uma resposta a uma realidade concreta da força de trabalho.
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