Por Brunella Tristão Simonelli
“O que é a falta de mão de obra qualificada, quando temos tantas pessoas querendo trabalhar?” Foi esse o questionamento que recebi na enquete de uma das minhas redes sociais, em ocasião do lançamento desta coluna.
Como explicar empresas com dificuldades em preencher as suas vagas e muitas pessoas procurando emprego? Por que os objetivos de profissionais e contratantes não se encontram, se são complementares?
Há alguns anos a visão de um profissional qualificado estava fortemente centrada na experiência e nos conhecimentos técnicos acumulados ao longo da vida. As hard skills (competências técnicas) eram decisivas e a ênfase estava na especialização e na capacidade de executar tarefas específicas.
O mercado de trabalho, contudo, passa por transformações significativas. Além do perfil técnico, as soft skills (competências comportamentais) são quase sinônimo de qualificação na atualidade e envolvem: habilidades interpessoais, de comunicação, pensamento crítico, capacidade de resolver novos problemas, adaptabilidade. Autogestão, proatividade, visão sistêmica e aprendizado contínuo, também são características determinantes para a avaliação positiva do perfil de um profissional nos dias de hoje.
A principal mudança na visão do profissional qualificado é, então, o reconhecimento da importância do equilíbrio entre hard e soft skills. As empresas perceberam que, para serem bem-sucedidas em um ambiente de negócios dinâmico e em constante evolução, precisam de profissionais, que além de possuírem conhecimentos técnicos sólidos, tenham um repertório comportamental favorável para lidar com os desafios presentes e antecipar os futuros. Perceberam, ainda, que é mais fácil treinar habilidades, do que desenvolver atitudes.
Quando uma empresa diz não ter encontrado profissionais qualificados, na maioria das vezes, ela quer dizer que não encontrou no repertório comportamental dos candidatos, resultados positivos alcançados a partir das atitudes adotadas por eles em situações anteriores, seja de trabalho ou de vida. Aliás, essa avaliação se inicia na forma como respondem (se respondem) a um convite para participar de uma seleção e no comportamento durante uma entrevista, por exemplo.
E se você me perguntar qual o fator decisivo no passado, que continua sendo valorizado hoje, eu vou lhe dizer que ainda é a estabilidade profissional. Os empregadores esperam dos candidatos uma média de permanência de dois anos em empregos anteriores. Pode ser que isso mude com o tempo, já que a visão do que é uma permanência estável por parte dos próprios profissionais gira em torno de oito a dez meses, mas essa divergência entre as partes ainda é um grande desafio a ser vencido.
Em síntese, investir em formação continuada é importante, todavia, por si só, não garante a visão de um profissional ser qualificado. Investir no desenvolvimento de competências comportamentais e socioemocionais é, portanto, um divisor de águas na atualidade e continuará sendo no futuro.
E se há profissionais com dificuldade de re(colocação) e empresas com dificuldades de contratação, também precisamos analisar as expectativas por parte de quem busca um emprego. Quais os comportamentos esperados pelos candidatos em relação aos empregadores? O que consideram ser uma empresa atrativa? Tudo tem dois lados e é essa a perspectiva que lhe apresentarei na próxima semana. Afinal, queremos ver esse “match”. Até lá!


