Demissões silenciosas invertidas: quando são os líderes que desistem

Por Brunella Tristão Simonelli

Você provavelmente já ouviu falar em “quiet quitting”, o movimento em que colaboradores fazem apenas o básico, sem se engajar além do estritamente necessário. Mas, e quando essa desconexão vem de onde menos se espera, ou seja, da liderança?

Existe um fenômeno crescente no ar, que é a demissão silenciosa dos líderes, termo que podemos utilizar quando não se trata de um pedido de desligamento em si, mas a permanência no cargo com uma desconexão emocional, que reflete esgotamento e falta de energia para o exercício efetivo da liderança. Nesse caso, cai o papel inspirador, que orienta, engaja e desenvolve as pessoas.

Poderíamos dizer que se trata de um presenteísmo no cargo de liderança. É muito importante que as organizações fiquem atentas aos sinais, não no sentido de punir; longe disso. O intuito é justamente reverter o cenário e evitar a incidência de novos casos.

Portanto, preste atenção nos líderes que evitam conversas difíceis. É quando há um desalinhamento, um desafio novo ou até mesmo uma dificuldade clara, sobre a qual a liderança evita falar.

Além disso, você poderá ter dois extremos: menor presença nas rotinas que antes eram mais assertivamente acompanhadas ou um foco excessivo no operacional, que afasta o líder de sua atuação estratégica.

No que se refere ao comportamento é possível observar uma comunicação fria, automatizada e desmotivada, bem como, uma postura mais reativa que proativa.

E, então, você pode se questionar sobre o porquê desse movimento. Ora, o ambiente corporativo está mais desafiador. Entretanto, não se trata simplesmente de não suportar a pressão por resultados.

Quando nos debruçamos no entendimento desse cenário vemos como causas mais frequentes as metas desalinhadas à realidade, a falta de apoio para o próprio desenvolvimento e até mesmo um choque de valores, que resulta na falta de identidade com a organização.

Some-se a isso a sobrecarga emocional, o aumento dos conflitos, a redução do sentimento de pertencimento, uma desestruturação organizacional frequente perante as mudanças, que, obviamente, trarão um esgotamento mental. Não há dúvidas de que esse é um cenário fatídico para gerar desgaste e desconexão.

O impacto disso é que os líderes que se desligam mesmo quando ainda estão presentes impactam negativamente o clima, a cultura, a motivação e o desempenho as equipes. Aos poucos a base do iceberg vai se reconfigurando. É estratégico, então, avaliar esses indicadores para que as suas influências não sejam visíveis na ponta.

Nem tudo é dito. As pessoas desistem de tentar ser ouvidas, quando em várias situações anteriores não obtiveram sucesso. Elas também deixam de tentar fazer a diferença, quando percebem que o que é valorizado é a manutenção do status quo.

As demissões silenciosas invertidas acontecem; é fato. Não precisam, contudo, ser uma tendência em todas as organizações. O letramento sobre esse fenômeno é importante. Decisivo, todavia, é se antecipar e evitar que ele ocorra ou se dissemine.

brunella@talentorh.net

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