Por Brunella Tristão Simonelli
Processos seletivos cada vez mais ágeis? Temos. Esse é o resultado da utilização cada vez maior da Inteligência Artificial (IA) ao recrutar e selecionar pessoas. Entretanto, essa ferramenta que traz velocidade e precisão na triagem e análise de dados sobre os candidatos, não é suficiente para dar conta de toda a complexidade envolvida na escassez de mão de obra.
Nacionalmente, temos a menor taxa de desemprego desde 2012, o que dá aos trabalhadores maior autonomia e poder de barganha. Em suas escolhas, passa a ser decisivo, sobretudo, jornadas menores e maior qualidade de vida.
Dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (CAGED)apontam que os pedidos de demissão voluntária em 2025 foram recordes(9,2 milhões). 48% foram entre jovens de 18 a 29 anos. Estar nessa faixa etária e ter a escolaridade de ensino médio representam menor custo na transição de carreira para o trabalhador e justificam permanências mais curtas em cargos que são considerados de entrada, como os do comércio, por exemplo.
O Estado do Espírito Santo também segue essa lógica nacional com 2,4% de desemprego, a menor taxa em 14 anos. Seis em cada dez 10 capixabas estão trabalhando. Esse cenário traz diversas oportunidades de carreira aos trabalhadores e contribui para a dificuldade de as empresas preencherem as suas vagas. Além disso, com o mercado aquecido, a rotatividade tende a ser alta entre aqueles que optam por melhores condições de trabalho.
Engana-se quem pensa que a transição sempre se dá por um salário maior. A remuneração continua sendo importante, contudo, os profissionais buscam por atrativos que vão além, como oportunidade de crescimento, qualidade de vida e alinhamento de seus valores pessoais com a cultura organizacional.
É urgente, então, que as empresas repensem as suas práticas de atração e retenção de talentos para não continuarem sofrendo com a escassez de mão de obra.
Muitas vezes vemos explicações mirabolantes e dissociadas do real contexto em que se encontra o mercado de trabalho. Essa dificuldade em enxergar a realidade traz ineficiência ao agir. O trabalhador mudou e as relações de trabalho precisam acompanhar as transformações dos novos tempos.
Conhecer as expectativas de alguém que opta por entrar e, mais ainda, ter ciência sobre as razões que levam um profissional a buscar fora condições que não vislumbra internamente é imprescindível para a quebra de paradigmas em torno do mercado de trabalho atual.
Qualquer movimento que não parta desses pontos é mera especulação. Então, recomendo aos contratantes o exercício de entender as expectativas que levam um profissional a ingressar e os motivos que o levam a pedir o seu desligamento.
Analisar os dados encontrados por um período mínimo de 60 dias já dará ao RH melhores argumentos para alcançar as mudanças necessárias. Afinal, contra fatos não há argumentos.
A IA é um recurso. Política de gestão de pessoas é outra coisa.
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