Por que você faz o que faz?

Por Brunella Tristão Simonelli

O primeiro contato que todo ser humano teve com as profissões foi nas brincadeiras ainda quando criança. Brinquedos e travessuras para lá de sugestivos faziam os adultos já traçarem um futuro profissional brilhante com base nas afinidades identificadas.

Não há nada de errado nisso. O brincar é uma grande fonte de desenvolvimento para as crianças e as afinidades são grandes preditores de identificação com uma área profissional.

O fato é que há algo nada óbvio nas escolhas profissionais: os nossos sintomas psíquicos. Para a Psicanálise, a escolha profissional raramente é resultado apenas de aptidões, interesses, oportunidades ou vocação. Embora esses sejam os critérios mais frequentemente (e conscientemente) usados nas escolhas, existe uma camada inconsciente que também influencia nessas decisões: os sintomas psíquicos, a subjetividade e a forma como cada indivíduo aprendeu a lidar com as suas angústias ao longo da vida.

Nesse sentido, o sintoma não se refere a um problema a ser eliminado. Ao contrário, trata-se de um aspecto constitucional do sujeito, que marca uma tentativa de o psiquismo elaborar os conflitos internos. Dessa forma, algumas escolhas profissionais podem funcionar, ainda que inconscientemente, como mecanismos de defesa, proteção ou reparação emocional.

Uma pessoa marcada por um forte sentimento de injustiça, pode lutar pela reparação da dignidade das pessoas, trabalhando em suas defesas.

Alguém que conviva com a ansiedade pode preferir carreiras altamente estruturadas, previsíveis e normatizadas, encontrando nelas uma sensação de controle que não consegue experimentar internamente.

Profissionais com excessivas jornadas podem, na verdade, investir mais tempo no trabalho, não por paixão ou comprometimento, mas por dificuldades em enfrentar outras esferas da sua vida, como a afetiva ou familiar.

Em muitos casos, os sintomas não determinarão a escolha, mas direcionarão para um campo específico de possibilidades, levando os sujeitos a um caminho mais confortável, de preservação de energia vital, afastando-os da vivência da angústia.

De acordo com o psicanalista francês, Jacques Lacan, o sujeito nem sempre sabe o que o move. Existe uma distância entre aquilo que pensamos desejar e aquilo que, inconscientemente, orienta as nossas decisões. A escolha profissional é um dos lugares onde essa dinâmica frequentemente se manifesta.

Não se trata de patologizar as escolhas profissionais, mas que a carreira, assim como os relacionamentos e outras escolhas na vida, também é atravessada pela história emocional e constitucional de cada sujeito.

A pergunta não é meramente “o que eu gosto de fazer?”, mas também “o que minha história emocional me permite ou me impede de escolher?”. Nesse sentido, os processos de orientação profissional precisam considerar, para além de interesses, habilidades e traços de personalidade, a relação que o indivíduo estabelece com sucesso, fracasso, autonomia, expectativas, reconhecimento, autoridade, responsabilidade e pertencimento.

Quanto mais consciência alguém desenvolve sobre sua dinâmica emocional, incluindo os seus conflitos internos, mais livre se torna para construir uma trajetória profissional autônoma e mais compreende o que suporta e o que não suporta. Afinal, há um motivo para você fazer o que faz e estar onde se encontra. Pense nisso.

brunella@talentorh.net

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