“Dizem que a mulher é o sexo frágil, mas que mentira absurda”

Por Brunella Tristão Simonelli

Já cantava Erasmo Carlos na canção que escreveu com a sua esposa, Narinha: “Na escola em que você foi ensinada

Jamais tirei um dez

Sou forte mas não chego aos seus pés”

Dia desses me peguei na correria para pintar a raiz do cabelo e fazer as unhas, porque eu tinha um treinamento importante no outro dia. Não devia ser o conteúdo do treinamento a minha única preocupação? Que pressão é essa para que, além dos resultados, apresentemos a melhor versão do autocuidado como se cabelos brancos não existissem e unhas naturais fossem sinônimo de relaxo? É claro que o autocuidado é importante, mas essa é mais uma pressão que o homem não conhece, pelo menos não nesse mesmo nível.

No Brasil, de acordo com dados do censo de 2022, em uma parcela com 25 anos ou mais, 20,7% das mulheres têm nível superior completo, contra 15,8% dos homens. Isso representa uma diferença de 4,9% a mais de mulheres com ensino superior nessa faixa etária.

Mesmo assim, as mulheres ainda recebem cerca de 20% a menos que os homens e têm maiores dificuldades em ocupar cargos de liderança. Hoje, contudo, a desigualdade é menos explícita e mais estrutural e cultural e requer reconhecimento simbólico e político dentro das organizações.

Os dados são favoráveis. Afinal, relatórios do McKinsey & Company indicam que empresas com maior diversidade de gênero na alta liderança têm maior probabilidade de apresentar desempenho financeiro acima da média.

O Credit Suisse também identificou que empresas com mulheres em conselhos de administração apresentam melhor performance de mercado em longo prazo. Ou seja, quando mulheres ocupam espaços de decisão os resultados frequentemente melhoram.

Além disso, sobretudo durante a pandemia, estudos acompanhados pelo World Economic Forum mostraram forte presença feminina na reorganização de pequenos negócios e na liderança de iniciativas comunitárias. Elas demonstram que, em cenários de instabilidade, a adaptabilidade não é fragilidade, e sim uma força estratégica e decisiva.

O gap na desigualdade entre homens e mulheres nunca foi uma questão de capacidade. Ao contrário é fruto de uma construção histórica de papéis sociais que desprivilegia a mulher. Também é reflexo da distribuição desigual do cuidado com a família, que a sobrecarrega e que protege as redes de poder masculinas já consolidadas.

O “sexo frágil” é mais uma narrativa cultural, social e histórica; não é um dado empírico.

Já parou para pensar onde está a fragilidade, visto que as mulheres estudam mais, vivem mais, lideram com resultados consistentes e demonstram competências-chave para as demandas da nossa Era? 

Não vejo outra resposta a não ser que essa fragilidade está na visão que se tem do gênero. Dito de outra forma, está nas estruturas que ainda resistem à equidade e mantém a desigualdade.

Mulher, você é inspiração a ponto de Erasmo “decantar você nessa canção”. Feliz Dia Internacional da Mulher. Que além de flores e chocolates, você receba o respeito à sua dignidade, à sua capacidade e o direito de permanecer viva. Porque afinal de contas, esse é o “parabéns” que merecemos.

brunella@talentorh.net

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