Por Brunella Tristão Simonelli
Sexta-feira passada vivi um momento ímpar. Minha turma da faculdade experienciou uma aula da saudade em comemoração aos nossos 25 anos de formados. Contamos com a presença do Professor Nelson Lucero, que foi o responsável por nossa primeira aula na graduação.
Falamos de saudade e, consequentemente, da nossa memória. Em tantas provocações e reflexões, eis que nosso mestre afirma: “a nossa memória é uma ilha de edição.”
Ao longo da vida os eventos nos afetam, vão e voltam. Sentimos e ressentimos e isso é cíclico e quase sem fim para tudo que mais nos deixou marcas. Sobre isso, cada retorno de um evento à nossa memória é uma oportunidade para elaborarmos o acontecimento e lidarmos com ele com uma carga afetiva diferente da original: a edição. Então, metaforicamente, editamos e reeditamos os fatos, acontecimentos, traumas, medos, perdas, encontros, desencontros e até o luto.
O que vivemos já não existe mais. O que existe agora é a edição que fomos capazes de fazer daquilo que vivemos. Na psicologia damos a esse processo o nome de elaboração.
É isso que o processo psicoterapêutico (de verdade, legítimo e científico) proporciona: a elaboração e reelaboração dos afetos atribuídos aos eventos que vivemos ao longo da nossa vida.
Viver sem elaborar (ou editar) é pesado. A carga efetiva muito semelhante à original, aquela vivenciada na ocasião do acontecimento, pesa, aprisiona e traz desgaste emocional. Não se trata de esquecer e sim, de mudar a percepção, o olhar e a emoção provocada a cada retorno dos eventos à memória. É assim que nos desenvolvemos e amadurecemos emocionalmente.
A vivência do luto é muito parecida com tudo isso, seja em relação a um trabalho, relacionamento, lugar, animal de estimação ou uma pessoa marcante em nossa vida.
Já que estamos às vésperas do Dia de Finados é importante ressaltar que o luto não é apenas uma reação à ausência. É também o processo de reorganização da vida diante de uma realidade que já não corresponde àquela que conhecíamos.
É imprescindível destacar que não existe uma maneira única, universal ou obrigatória de viver o luto. Sua experiência não é linear e pode alternar momentos de tristeza intensa com períodos de tranquilidade, saudade com alívio, recolhimento com vontade de conviver. Uma lembrança, uma música, um perfume, uma data comemorativa ou um lugar familiar podem reativar emoções que pareciam adormecidas.
A recuperação não tem prazo definido no calendário, tampouco, exige uma despedida definitiva dos sentimentos, mas a possibilidade de construir uma vida na qual a dor possa existir sem ocupar todos os espaços.
Uma das coisas mais importantes em relação a qualquer acontecimento, inclusive o luto, é justamente falar sobre ele. Na medida em que falamos temos a chance de escutar o próprio discurso e elaborar: ressentir, ressignificar e editar.
Aos que são apoio, que não se preocupem com uma técnica ou com o que dizer; apenas escute atentamente. É assim que vocês proporcionam a chance de a pessoa ter uma edição cada vez melhor que a outra.
Ao Professor Nelson, um agradecimento especial à oportunidade de editarmos os nossos encontros e afetos com você e com a psicologia.
Sigamos editando a vida.
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