Por Brunella Tristão Simonelli
Tudo em um clique. Localizar dados, produzir relatórios, analisar cenários, elaborar textos, automatizar tarefas e encontrar respostas para perguntas que, até pouco tempo atrás, exigiam horas de pesquisa e conhecimento especializado.
Mas existe uma reflexão que não pode deixar de ser feita: afinal, estamos usando a tecnologia para ampliar nossa inteligência ou estamos, gradualmente, deixando de exercitá-la? De outro modo, as organizações estão priorizando a velocidade, criando dependência tecnológica e perdendo conhecimento crítico com risco de dominarem cada vez menos os próprios processos?
A questão central é a necessidade de acelerar o trabalho sem deixar de ampliar a capacidade de pensar, compreender, decidir, avaliar e questionar o que a Inteligência Artificial (IA), por exemplo, entrega.
Não podemos deixar que a facilidade de obter respostas nos faça esquecer a importância de compreender as perguntas que precisam ser feitas.
Exemplificando, imagine um profissional que utilize a IA para elaborar um relatório em minutos, com estrutura irretocável e uma linguagem convincente. Esse profissional seria capaz de identificar uma informação incorreta e defender as conclusões apresentadas se for questionado pela diretoria?
A questão passa longe de defender o retorno a métodos ultrapassados ou manuais, transformando a tecnologia em uma inimiga humana. O que está em jogo é não perder de vista que automatizar uma tarefa é diferente de condenar as competências humanas ao sedentarismo.
As organizações precisam atentar para não construírem vulnerabilidades, enquanto acreditam estar se tornando mais eficientes, quando, por exemplo, investem em sistemas sofisticados ao mesmo tempo em que o conhecimento sobre o negócio se concentra em ferramentas, fornecedores externos ou em poucas pessoas que sabem operá-los.
E há uma questão ainda mais profunda: se os profissionais deixam de compreender os processos porque a tecnologia passou a executá-los, quem será capaz de identificar oportunidades de melhoria, perceber desvios e propor soluções quando o cenário mudar?
Além disso, quando pensamos no desenvolvimento das pessoas precisamos lembrar que o aprendizado exige o estabelecimento de relações, a experimentação, a formulação de hipóteses e compreensão de o porquê algumas soluções funcionam e outras, não.
Isso tem implicações diretas para a gestão de pessoas. Como preparar profissionais para desafios que ainda não conhecemos se o raciocínio lógico passar a ser limitado? Como formar lideranças capazes de tomar decisões complexas se a análise crítica é substituída pela aceitação automática de recomendações? Como estimular a inovação se os profissionais deixam de questionar os procedimentos existentes?
É preciso manter e incentivar as oportunidades para que as pessoas compreendam os processos, compartilhem conhecimentos, discutam decisões e desenvolvam autonomia. O desafio, portanto, não é saber tudo. É não deixar de saber o que importa.
Essa lógica transforma o profissional do futuro naquele que sabe combinar recursos tecnológicos com pensamento crítico, repertório, discernimento e responsabilidade.
O problema não é usar o mapa de navegação; é não saber mais se localizar quando ele estiver indisponível.
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